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Reiki, não fazer

Publicado em 28 dUTC novembro dUTC 2011 por editor (0)

Nesta aldeia não chovia há longos meses. Preocupados com as consequências que a prolongada seca traria para as suas colheitas, os habitantes decidiram procurar o auxílio de um sábio que residia numa localidade vizinha, onde, em contrapartida, não parara de chover desde o Inverno.

O sábio deslocou-se até à aldeia e todos o observavam atentamente, esperando que, por obra de algum “fazer” misterioso, produzisse um milagre. Mas ele nada fez… Simplesmente solicitou que o deixassem ficar sozinho numa casa afastada da aldeia, o suficiente para poder estar à vontade sem ser perturbado.

O seu pedido foi de imediato atendido. E, durante alguns dias, o sábio não deu sinais de vida.

Foi então que começou a chover… As pessoas saíram para as ruas rindo e celebrando. Agora, as colheitas estavam salvas! Também o sábio apareceu, e perguntaram-lhe o que fizera, ao que ele respondeu:

- Nada.

Surpresos, os aldeões replicaram:

- Como assim? Alguma coisa terás feito para que voltasse a chover tão rapidamente e com tanta abundância.

Ao que o sábio retorquiu:

- Simplesmente descansei, recuperando do cansaço da viagem, e meditei por alguns dias. Foi então que o Tao que se encarregou de trazer a harmonia da minha para a vossa aldeia.

Quando o conflito me dilacera ou a confusão me entorpece, descalço os sapatos, sento-me ou deito-me, coloco as mãos sob a nuca ou sobre o peito… e Reiki começa a fluir.

Se me perguntarem o que faço, digo que “estou a fazer Reiki”. E percebo como a linguagem humana pode ser insuficiente ou enganosa. Declara o filósofo que os limites da minha linguagem significam os limites do mundo. Quando digo que estou a “fazer Reiki”, parto de um referencial, individual e coletivo, em que o FAZER é considerado força motriz do TER e núcleo de sentido do SER. Esses são os limites do mundo que conheço… Esses são os limites da minha linguagem… Esses podem então vir a ser os limites da minha experiência com Reiki…

Na realidade, numa sessão de Reiki, nada há para fazer durante aproximadamente sessenta minutos. Talvez por isso Reiki esteja entre as mais simples e desafiantes das práticas. Afinal, enquanto ia crescendo, fui repetidamente bombardeada com apelos alucinados a “fazer” mais e mais, para desse modo garantir segurança, prosperidade e sucesso nas diversas áreas da minha vida. Fui industriada a acreditar que é arriscado relaxar, que é necessário estar no controlo, para assegurar, de modo eficiente, a realização dos meus objetivos e conquistar eventuais obstáculos que se interponham no meu percurso.

No processo de crescimento pessoal, experimentei outras práticas. Constatei que, afinal, a grande maioria delas envolve também algum tipo de fazer, alguma medida de esforço, seja para efetuar determinada postura corporal ou conjunto de movimentos, seja para alterar temporariamente o padrão respiratório, seja para compor, dizer ou escrever afirmações de sanação…

Na prática de Reiki, por outro lado, há uma qualidade de “não fazer” que desafiou a minha mente enlouquecida e gratificou profundamente o meu coração. Quando Reiki flui através das minhas mãos, para o meu corpo, o corpo de outra pessoa, um animal, uma planta, posso simplesmente ser, sem expectativa. Não aspiro a nenhum resultado, não persigo nenhum objetivo. Restaurada a conexão com a fonte da vida, rendo-me ao fluxo, sou um canal de energia vital, deixando que esta opere em direção ao bem maior, além de quaisquer desejos, projeções ou idealizações.

E, nesse espaço, de silêncio, de vazio, a ação consciente tem então condições para germinar.

Emília Sarmento

Agosto/2011

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